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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Almoço solidário com Cante alentejano, em Santa Susana – Landal, evoca paroquianos à união para juntos chegarem longe

No primeiro almoço de angariação de fundos, promovido pela paróquia do Landal, em Santa Susana, no passado dia 28 de janeiro, foram muitos os que contribuíram para que o pároco José Gonçalves possa regressar, o quanto antes, à casa onde morava. Com o Cante alentejano a animar e a despertar nos paroquianos e população local um “coração solidário”, o sacerdote lembrou que o “bem comum” é de todos e para todos, e que deve ser uma realidade sempre viva em construção no quotidiano.

“Estamos todos a lutar para que a residência paroquial seja reconstruida. Não só para mim, mas para que os párocos que passarem por aqui, tenham um espaço onde vivam mais perto de vós. Por isso significa que somos todos co-responsáveis, na mesma direção e resolução dos problemas”, manifestou o padre José Gonçalves pedindo à comunidade que a “solidão nunca envelheça” seus corações, e que o espírito de solidariedade permaneça contagiante.

Lembrando que está ao serviço das paróquias há mais de 5 anos, o presbítero pôde concluir ao longo desta ação pastoral, que  comunidade e pároco, “unidos”, podem “chegar longe”. “Deus dá respostas muito grandes às necessidades e às coisas que são de todos, que cada um sinta a responsabilidade dessa missão”, reforçou.

O responsável sublinhou ainda que a ideia destas iniciativas, que visam angariar fundos para a reconstrução da residência paroquial, não passam apenas pela refeição e convívio, mas também pelo cariz do conhecimento e suas tradições; e exortou a população a adquirir o gosto pelo “bonito costume”.

“Hoje trouxemos o Cante alentejano, considerado pela UNESCO, Património Cultural Imaterial da Humanidade, em 2014. Esta gente fez centenas de quilómetros para cá chegar. Ambos de idade avançada, não sabemos como está o seu coração, as suas dores, não imaginamos; mas estão cá para cantar.  É muito bonito sentirmos que a solidariedade é isto mesmo, é estarmos todos e oferecermos aos outros o nosso trabalho, o nosso coração, as nossas palavras e também o nosso entusiasmo”, expressou o padre José Gonçalves, agradecendo a participação dos “Amigos do Cante” de Cuba neste dia solidário.

O pároco adiantou ainda que haverá mais duas iniciativas culturais agendadas. Em março, nos Casais da Serra, um encontro animado por ranchos folclóricos, e em abril, com um grupo de acordeões, no espaço das tasquinhas no Landal.

“É importante que a população e a comunidade se junte para este fim, porque cada vez é mais difícil nós termos nas nossas terras, os espaços e os meios onde as pessoas possam estar”, certificou o Presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, que marcou presença neste encontro, agradecendo aos presentes o contributo nesta causa. Tinta Ferreira valorizou a existência das residências paroquiais no centro das localidades para auxiliarem as comunidades no dia-a-dia.

O dirigente referiu que alguns párocos residem no centro da cidade caldense, porque não possuem casas paroquiais nos devidos lugares, exemplificando como realidades, as paróquias do concelho, Salir de Matos, Coto, Tornada e Salir do Porto. Alvorninha e Vidais, em que o seu pároco se deslocou para a freguesia da Benedita, no concelho vizinho, por não haver disponibilidade de espaço. O Centro Paroquial de Caldas da Rainha, que durante décadas, até chegou a acolher em comunidade tantos padres da região. Por sua vez e à imagem da casa do Landal, que tem acolhido o padre Gonçalves, também pároco em A-dos-Francos e São Gregório; Santa Catarina existe habitação própria, morando nela o prior que junta a mesma função no Carvalhal Benfeito.

“Aqui no Landal, a casa teve um acidente, um incêndio, que nos preocupou a todos, e o único que se podia mexer felizmente conseguiu aperceber-se do que se passava e por pouco tempo conseguiu sair. E ainda bem que o fez porque está aqui connosco e estamos naturalmente muito aliviados por isso. Agora é preciso reconstruir a casa, e eu sei que os meus amigos estão a colaborar, fazendo esforço nesse sentido, por isso a participação numerosa neste almoço”, declarou.

Confirmando também o contributo por parte do município, com um critério para as obras promovidas pela Fábrica da Igreja, Tinta Ferreira louvou o gesto das pessoas que estão a “criar condições” para que o padre José Gonçalves continue a viver no Landal, com oferta de roupas, cedendo espaço com independência para viver e trabalhar dignamente.

“Que o nosso amigo padre Gonçalves possa estar muitos e bons anos ao nosso lado, a promover a fé católica, a promover a ligação das pessoas, a promover a energia positiva, que nós precisamos todos os dias para viver melhor a nossa vida. Isso ele fá-lo muito bem. A presença de todos vós aqui hoje é espelho desta relação fraterna”, afirmou.

O presidente do município agradeceu ainda a visita do grupo de Cuba do Alentejo a Santa Susana, que pela primeira vez cantou em terras da região Oeste, por proporcionarem o momento tradicional tão castiço da sua cultura.

Em troca de recordações entre entidades, o colaborador da paróquia do Landal, José Morgado, que teve a ideia em trazer os Amigos do Cante, ao Landal, brindou o mestre Augusto Duarte com um abraço extensivo a todo o grupo, lembrando os presentes da importância do silêncio, na escuta desta arte, à semelhança como se canta o Fado.

“Aquilo que esta gente conseguiu para que o Cante fosse reconhecido como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, foi a vida dura que esta gente levou durante décadas de anos. Homens, que apesar de rugas na cara, e calos nas mãos, viajam pelo mundo, para representar Portugal, e ensinar-nos muita coisa que nós temos de saber respeitar”, sublinhou.

Reforçando as palavras de apoio transmitidas ao padre José Gonçalves neste dia, José Morgado sustentou que não basta reunir multidões de pessoas, tem de existir “vontade” e “querer” para que estas iniciativas aconteçam. “E chegarmos ao fim para podermos dizer, de consciência tranquila, fiz tudo o que pude para apoiar, para ajudar, qualquer pessoa necessitada”, realçou.

Por último, o porta-voz do Grupo Coral e Etnográfico Cubenses Amigos do Cante, Augusto Duarte, transmitiu o significado e a simbologia da sua tradição.

“Por vezes a gente tem uma vida melhor, mas esquecemo-nos do passado. As coisas ficam na nossa ideia, na nossa alma, mas também não podemos pensar sempre no triste, temos de ser alegres pois a alegria é que faz viver a gente”, revelou com emoção o representante, visivelmente agradecido pelo acolhimento proporcionado em Santa Susana.

Fundado em 26 de agosto de 1986, os “Amigos do Cante” têm levado o nome de Cuba e do Alentejo de norte a sul do país. Na imensidão da planície alentejana ainda se desenrola grande parte da atividade destes homens de trabalho. A fisionomia da paisagem marca a sua maneira de ser, de estar e de sentir. A tradição polifónica localmente designada por Cante é representada por repertório de modas onde os versos rimados, cantados sem acompanhamento instrumental constituem a natural exteriorização do sentimento popular; a alegria, a tristeza, o amor, a saudade.


João Polónia/Comércio & Notícias (texto e fotos)

(notícia João Polónia publicada no Comércio & Notícias a 5 de fevereiro de 2018)

http://comercioenoticias.pt/2018/02/05/almoco-solidario-com-cante-alentejano-em-santa-susana-landal-evoca-paroquianos-a-uniao-para-juntos-chegarem-longe/


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Eucaristia em Santa Susana – Landal integra cante alentejano e apela à construção da comunidade sob o ritmo do coração solidário

Na primeira passagem por terras da região Oeste, o Grupo Coral e Etnográfico Cubenses Amigos do Cante iniciou a Eucaristia dominical entoando o cante alentejano ‘O Bom Pastor’, em Santa Susana, freguesia de Landal, concelho de Caldas da Rainha, no passado 28 de janeiro. O padre José Gonçalves exortando os crentes à “construção” da comunidade sob “o ritmo do coração solidário”, valorizou a “força da partilha” dos que “entendem” que quando existe “uma necessidade maior”, fazem tudo para que a resposta seja sempre “presente”.

“Não tenhamos medo destas realidades, tenhamos medo sim em dizer mal dos outros, esse é o curto-circuito que fazemos ao bem comum”, afirmou, pedindo aos presentes para que o seu coração não se endureça, “não fique duro” aos gestos de paz, de verdade, fraternidade e de solidariedade.

Segundo o sacerdote, o primeiro cante entoado pelos habitantes de Cuba, que tem como refrão, ‘Cristo Senhor és o guia, o Bom Pastor que me conduz, a minha vida e a minha luz’, dá a todos os cristãos “força para caminhar no meio dos trambolhões da vida”. “Jesus Cristo é sem dúvida o nosso refúgio, fortaleza e amparo”, acrescentou.

Na homilia, o padre José Gonçalves disse que a liturgia daquele domingo evoca à temática da escuta e do escutar: ‘Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações’. Pedindo aos fiéis para serem “tutores da paz, da alegria e do abraço do perdão”, o responsável desejou que esta voz da verdade fique gravada no coração de cada um, faça história nas suas vidas e percurso de existência no mundo.

“A solidariedade é a maneira simpática e muito bonita como nós devemos crescer e viver em sociedade. A solidão não gera nada, o egoísmo ainda menos, o orgulho e a vaidade a todos nos desunem”, alertou.

Para o sacerdote é necessário saber escutar e memorizar a mensagem no coração, para que de “coração transformado”, se entenda cada vez mais a “dinâmica do bem”. “O mau feitio de dizer mal dos outros, o mau feitio de pensar coisas menos positivas, o mau feitio de só agarrarmos aos bens materiais, à fama, ao poder, aos privilégios; azedam na nossa relação humana”, frisou.

Lembrando as palavras do Papa Francisco, na sua recente intervenção, o padre José Gonçalves disse que a força do voluntariado é capaz de converter o mundo tão orgulhoso. “Dando bofetadas sem mão, os voluntários interrogam o mundo egoísta, que se dinamiza pelos interesses e bens”, reforçou.

O presbítero manifestou ainda que a Palavra de Deus “incomoda”, porque quem se agarra a ela tem de dar uma “grande volta à vida, tem de dar volta ao seu coração”.

“Muitas pessoas vivem ao abrigo da ganancia, da corrupção, em função dos interesses financeiros, na procura desmedida dos cargos e estatutos sociais, provocando tantas guerras, violência e conflitos; esses ainda não entenderam o que é a Palavra de Deus”, indicou.

Caracterizando as obras de misericórdia como “o verdadeiro tecido social e humano”, na convivência de uns para com os outros, o responsável pediu à comunidade paroquial para dar cada vez mais importância ao que “gera e constrói o verdadeiro edifício da verdade”.

No final da celebração eucarística, os Amigos do Cante louvaram a padroeira de Portugal, dedicando o seu cante a Santa Susana, a qual dá nome àquela pequena localidade da freguesia do Landal. Já no exterior, e perfilados na escadaria da capela, o grupo convidou os cristãos a ouvir e a meditar o tradicional ‘Cante ao Menino’. Três cânticos religiosos entoados pelo grupo alentejano, que suscitou na comunidade paroquial, o gosto por esta tradição polifónica, fomentando o silêncio e o auxílio na interiorização das suas preces.

O dia “grande” vivido em comunidade, foi marcado também por um almoço solidário, que reverteu fundos para a reconstrução da residência paroquial, recentemente consumida pelo fogo, ao desalojar este pároco das paróquias de A-dos-Francos, Landal e São Gregório do Patriarcado de Lisboa.

Em declarações ao Comércio & Notícias, o padre José Gonçalves disse que a liturgia hoje tem espaço para todas as vozes e deve promover, “com abertura suficiente”, todas as tradições musicais do nosso país.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) elegeu o Cante alentejano como Património Imaterial da Humanidade em 2014. No entender deste sacerdote, se o Cante encanta multidões e tem elevo junto da comunidade internacional, também a Igreja Católica deve acolher o seu cantar no aspecto litúrgico, da mesma forma como já acontece com o Fado.

“Se não tiver lugar, considero que a liturgia escapa aquilo que são as pessoas, no fundo é também para as pessoas e não só para Deus. Nós precisamos da liturgia para crescer na fé, para crescer na alegria, para crescer na fraternidade, conforme Deus nos aconselha”, alertou.

O pároco clarificou que não se pretende cantar canções extra religiosas, mas sim cânticos que são “expressão de um povo”, mesmo a nível cristão, que ao longo da sua história se tornou presente com letras e músicas; “esse mesmo sentido é o palpitar da fé”.

Ao Comércio & Notícias, o padre José Gonçalves revelou ainda que foi com “emoção e imensa alegria” que ouviu o Cante dedicado a Nossa Senhora, com adaptação da letra, evocando também Santa Susana. “Fiquei comovido perante o cantar desta gente que apesar de tudo, gente já idosa, com dores no corpo e alguns achaques, mas que cantaram de uma maneira tão sublime e tão encantadora, que até nos inspira tanta espiritualidade”, confessou, lembrando que o ditado popular ‘cantar é rezar duas vezes’ continua bem presente e “ajuda-nos a interiorizar mais a sua palavra”.


João Polónia/Comércio & Notícias (texto e fotos)

(notícia João Polónia publicada no Comércio & Notícias a 1 de fevereiro de 2018)

http://comercioenoticias.pt/2018/02/01/eucaristia-em-santa-susana-landal-integra-cante-alentejano-e-apela-a-construcao-da-comunidade-sob-o-ritmo-do-coracao-solidario/


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

“Abraço Solidário” ajuda padre a recuperar residência paroquial

O padre que, no passado 4 de dezembro, ficou desalojado devido a um incêndio na Casa Paroquial do Landal, concelho de Caldas da Rainha, já recuperou do susto e encontra-se a viver num espaço cedido pela população, junto à igreja.

O cordão humano e solidário tem mobilizado milhares de pessoas, de norte a sul do país, com roupa e angariação de fundos para as obras de reconstrução da sua habitação, que arrancará já em janeiro do próximo ano.

No Domingo da Alegria, José Correia Gonçalves em declarações ao Comércio & Notícias contou que a última quinzena tem sido atribulada, com muito trabalho e preocupação acrescida na resolução para a atual situação. “Já ultrapassei o período inicial que levou a um certo pânico e desconforto existencial. Felizmente as pessoas colaboraram bastante, quer na oferta de roupas, quer no acolhimento, ao cederem-me um anexo que reúne as condições básicas para viver com independência”, revelou emocionado pelo gesto dos paroquianos.

As paróquias de Queijas e Alhandra, em Lisboa, com ofertórios nas missas, e o M.A.C – Movimento Cívico dos Antigos Combatentes do Ultramar, cujo sacerdote assiste espiritualmente, não ficaram indiferentes, e por iniciativa própria, mobilizaram-se com donativos e bens para melhorar a condição do pároco, auxiliando e apressando a reconstrução da casa paroquial. “Tenho tido o apoio muito grande de pessoas amigas, e este sentimento também se manifesta nestes momentos mais frágeis”, sublinhou. “Pedi aos párocos de Caldas da Rainha para que os paroquianos e os católicos da cidade se expressassem com generosidade nas ofertas do domingo passado”, referiu, justificando como o único pedido pessoal.

O responsável da comunidade interparoquial de São Gregório, A-dos-Francos e Landal, da Vigararia Caldas da Rainha/Peniche do Patriarcado de Lisboa, agradece a todos os que contribuíram com generosidade e amizade.

Também ao Comércio & Notícias, o seu colaborador José Morgado disse estar feliz por a sua petição, divulgada na Internet através da rede social Facebook, ter alcançado milhares de pessoas, despertando nos crentes a necessidade de ajudar um padre, que tem feito muito pelos outros. “Nunca pensei que o meu post fizesse eco nacional, mobilizando amigos, conhecidos e outros anónimos, num extraordinário elo solidário, ora com roupas, ora com dinheiro entre depósitos e transferências”, garantiu com surpresa pelas 400 partilhas da publicação nas primeiras horas, lembrando que bastaram dois dias para o sacerdote reunir roupa suficiente.

“A residência do padre Gonçalves ardeu, mas as paredes nunca vão cair, porque não há espaço para conter o coração deste Homem/padre que tanto e bem tem feito a quem necessita. Ele abraça o mundo a cada segundo que passa mas, perante esta calamidade, necessita da partilha solidária de todos. E porque ficou sem nada, e as chamas foram mais fortes, vamos dar as mãos e ajudar a levantar a sua casa”. Foi com estas palavras que José Morgado fomentou nos internautas o apelo urgente a abraçar com carinho esta causa, que em poucos dias deu frutos.


João Polónia/Comércio & Notícias